sábado, 27 de dezembro de 2008

Carta a Cleonice Rodrigues Cardoso

Oi Nice!!!
Sou professora de surdos, trabalho na Prefeitura Municipal de Vitoria, sou portadora de uma surdez complicada pois, uns me acham surda outros acham que finjo de surda, mas vou levando a vida, pra mim o mais importante é ser eu mesma, pois é aquilo que falamos na última aula: por ser uma surda oralizada muitos não acreditam na minha perda auditiva. Mas estou muito feliz na minha função, sou formada em Letras Português/Inglês, pós graduação em Libras e gosto muito do que faço.
Sou de uma família que tem muitos surdos, vivo sempre na comunidade surda, portanto minha luta ao lado deles é contínua. Perdi minha audição aos 4 anos, com remédios tóxico à base de penicilina segundo os médicos do interior, porém com tantos casos de surdez na minha família não se sabe a causa certa, porém o que me salvou a preservação da minha língua portuguesa foi a ajuda do meu falecido pai querido e muito amado, pois ele me ajudava muito, procurava ler livros comigo, pedia para que eu lesse em voz alta e conversava muito comigo. Como ele trabalhava como coordenador no colégio onde eu estudava, ele sempre pedia aos professores para me tratar bem, eu era a filha amada dele, com isto fui muito bem instruída, bem acompanhada graças à Deus, ao meu pai e à minha mãe que era professora eu a acompanhava nas aulas e nas tarefas da sala de aula dela então vivia mais em escola e em sala de aula, foi o que me ajudou no aprendizado da língua portuguesa tanto oral quanto escrita, porém a minha audição ainda é uma incógnita pra uns, pois alguns sons eu ouço outros não, mas isto faz parte do tipo de surdez. Na cidade do interior onde morava ( B. São Francisco) me formei em Magistério e contabilidade, e vim pra Vitória ainda adolescente e comecei a trabalhar na Telest onde fiquei por 20 anos. a partir da privatização e perda do emprego, morei 3 anos na Itália e de volta pra minha terrinha amada é que comecei a me capacitar pra área de educação de surdos onde estou ate hoje e percorri muitos caminhos pra chegar ate aqui.
Atualmente trabalho na "PMV" como professora Bilíngüe, em horários alternados, atendo alunos no contra turno, trabalho à noite no EJA, que tem perfis diferentes, é um desafio muito grande, pois cada horário é um grupo diferente de alunos, tenho trabalhado com crianças surdas e a noite com jovens e adultos surdos, mas atendo os da noite também no horário do contra turno, mas está sendo uma experiência nova e desafiadora.
Gosto de desafios, ver os alunos surdos tendo oportunidades de aprender, neste ano de 2008 se formaram 6 na oitava série que foi uma vitória para eles e uma honra para nós.
Olha amiga, para mim, esta sendo um prazer muito grande fazer este curso com voce poder trocar experiência, pois assim podemos crescer cada vez enriquecer nosso aprendizado e este Blog veio nos ajudar mais ainda.
Beijos,
Lucy

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Carta para Diolira

Querida amiga (de tantos caminhos...)
Vou relatar "em poucas palavras" minha trajetoria pessoal/profissional,e fazer de conta que você não sabe (kkk)

Minha vó paterna surda,teve 3 filhos surdos,a irmã dela teve 8 filhos, todos surdos, casados com surdos,(incrivel) com filhos surdos.Meus pais são surdos. Fui altamente planejada...Alguns "equivocos"ocorreram:

  • data do nascimento: 25 de setembro (eles planejaram para dia 26-aniversário do INES)
  • ouvinte (descobriram minha audição,quando completei 5 anos)

Passei por situações ,(hoje engraçadas),fui "emprestada"para que meus tios surdos,pudessem "ouvir o relógio" ou quando os filhos deles precisassem de ir ao médico, ou reunião na escola.

Na verdade, o que mais me marcou,foi, quando estava na 4ª série,dia das Mães, na escola,eu teria que recitar um lindo versinho,trenei em LIBRAS, por quase uma semana...Na hora,logicamente,posicionei-me na frente da minha mãe, e "interpretei" ,ou quase isto.

A diretora, sem qualquer "tato",pressionou meu braço(na verdade, cravou suas enormes unhas) e disse em tom alto e claro"...fala com a boca..."eu respondi (chorando)"...minha mãe é surda..." ela retrucou..."problema seu,fala com a boca..." Não tive coragem para olhar para minha mãe, corri para casa chorando.

Ao terminar o Ensino Fundamental,anunciei para meus pais, que havia optado pelo magistério,meu pai professor, não gostou muito,mas aceitou.(Como prova do seu "desgosto"não compareceu na formatura).

Inciei, minha profissão,primeiro como voluntária,em Minas (Juiz de Fora),sendo itinerante,na verdade,como diz uma amiga "viajante".

Cheguei em Guarapari,de férias,apenas 15 dias,liguei a TV,e uma "equipe" estava apresentando seu trabalho com surdos,imediatamente,anotei o telefone,e entrei em contato,iniciou uma boa amizade,conheci o J.César.

No dia seguinte, ele retornou minha ligação, pedindo para que eu fosse a uma determinada escola,pois lá precisavam com urgencia de uma professora de LIBRAS.

Não retornei para Minas, fiquei,fui ficando, estou... e pretendo continuar!

Cursei Pedagogia,Pós Graduação,participei de alguns seminarios,hoje Letras/LIBRAS,e este curso :professor bilingue ,por sinal mais uma "invenção " da Lu.

Atuo na escola Nice de Paula(Pólo)em Vila Velha como professora da disciplina LIBRAS ("a menina dos meus olhos").

Um dia na sala de aulas,uma aluna, indagou-me..."professora,porque não podemos,juntos com os surdos, interpretar o Hino Nacional em LIBRAS?...

Sinceramente,segurei para não chorar,afinal, por segundos, revivi, aquela "bendita diretora" que um dia me fez chorar muito...

Fiz questão de postar a foto,onde os alunos,todos juntos, interpretamos o Hino,detalhe,já pediram ,para que no próximo ano, tenhamos dois dias de intepretação.

Mil beijinhos no seu lindo coração...

Sua fã de carteirinha

Regina

Sonhos se realizam...


Sala Bilíngüe: nessa foto eu não estou presente, mas ela representa a maior prova viva de que uma política estruturada e baseada nas necessidades que os próprios surdos apontam, é possível e viável. Pensar política inclusivas tendo o surdo como principal construtor dela, é a maior vitória personificada na sala bilíngüe, lugar onde surdos aprendem seus conteúdos em Libras. Quer o que mais? Eu sou muito fã dessa política. Espero que dure muito e não seja desfeita por políticas partidárias. Mas ela já provou que é possível sonhar e pôr em prática o que acreditamos e nunca devemos desistir!

melhor momento....


Quando,convidada ,para atuar com regente da disciplina LIBRAS, na escola Nice de Paula (Pólo único de Vila Velha),não imaginava a proporção

que levaria....os próprios alunos sugeriram que o Hino Nacional,fosse interpretado em LIBRAS, uma vez por semana.Nesta foto mostro com muita honra,a atuação de todos....

Carta a meu irmão CODA, Josué

Escrever uma carta a vc, contanto a minha trajetória é muito interessante pra mim. Além de ser meu irmão CODA, tem se interessado a pouco tempo em participar dessa vida que já estou engajada a algum tempo.

Posso sempre contar sempre com vc para as coisas e estou muito feliz com isso. Vou te contar algo da minha trajetória... vai me ajudar muito compartilhar com vc minhas experiências.

A pergunta que me faço é se comecei desde cedo, afinal, sou filha de surdos e isso constitui como lido com toda a minha vida profissional. Sempre fui muito cobrada desde cedo a dar conta de coisas que não queria dar, mas vislumbrava sempre algo mais.

Nunca quis ser professora na minha vida. A minha primeira profissão no pré II, era ser juíza enquanto as minhas colegas queriam ser professoras "igual a Tia Valéria". E crescendo, queria ser escritora, queria ser bailarina (hahahahahaha), mexer com engenharia genética, ser modelo, ser atriz, ser algo ou alguém...

Acabei professora!!!! De surdos ainda...

Então me dediquei a ser a melhor professora porque era totalmente contra o oralismo. Mas na minha época, ser contra o oralismo era como dar um tiro no pé e ficar sem emprego. Só não fiquei porque dava aulas particulares e depois, consegui trabalhar na prefeitura com o meu magistério.

Não posso deixar de mencionar duas situações importantíssimas na minha vida: a Carol, uma aluna minha, que comecei a construir alguns conceitos com ela ( nas minhas aulas particulares) e a Prefeitura Municipal de Vitória, onde iniciei minha carreira de professora de surdos. A PMV foi o primeiro lugar a me dar guarita quando precisei crescer. E a acreditar no meu trabalho e na minha proposta.

E sempre, estudei muito. Vc sabe que sou muito leitora. Ler, ler e ler. Não sei sinceramente se isso é benção ou maldição. Benção, porque sou viciada e preciso ler para alimentar meu vício ou maldição, porque começamos a ficar muito sabidos e isso incomoda. Chamar atenção incomoda as pessoas e me incomoda tb.

Vc nem imagina como me incomoda!!! Saber que algumas pessoas se incomodam com o conhecimento. Mas me alivia saber que a maioria tb quer crescer e muito. Isso me alivia e me alimenta.

Jo, comecei assim. Trabalhando, lendo e testando os meus conhecimentos. Não dá pra falar da minha trajetória profissional e desvinculá-la da acadêmica. Estão interligadas. Sou o que sou pela minha trajetória acadêmica. Pela minha luta e meu trabalho na academia. Convencer a academia foi a maior vitória minha como profissional. Passar no mestrado num lugar onde meu discurso incomodava (vc sabe que sempre fui um pouco contra a inclusão que está sendo posta) foi uma benção de Deus, depois de ter ficado reprovada. Ouvir pessoas dizerem: "minha nossa... se essa menina passar no mestrado... aiaiai..."; é um desafio maior ainda e me alimenta mais e mais. Enfim, confiar em Deus e estudar é o segredo de, por exemplo, criar em Vila Velha uma escola pólo como foi feita e bancar isso. Dizer que o surdos devem estudar juntos porque eles com ouvintes não dá sem que alguém saia perdendo. Foi a maior experiência prática da minha vida. Sobre ela eu conto mais depois pra vc.

E por fim, estou hoje no doutorado e enfrentando uma nova caminhada: formação de professores tanto em nível de graduação quanto na formação continuada. Isso é maravilhoso!!!! E escrever te contando isso é mais ainda. Mas pode deixar que assim que der, te conto mais coisas.

Um abraço e até a próxima carta.

Lu (sua irmã CODA)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Carta a Adriana Thoma, coordenadora do grupo de professores de Porto Alegre (UFRGS)

Adriana,

Vc pretende continuar esse projeto ano que vem?

Porque para o ano que vem, alimentando o nosso blog com nossos exercícios de escrita aqui do nosso grupo, o que vc acha de marcarmos "encontros" por meio dos blogs? Trocando cartas e histórias entre osparticipantes de seu grupo e os daqui? O que vc acha de criarmos uma comunidade virtual nesse sentido?

Só uma idéia que tive agora. Vou ainda alimentar o blog daqui com o grupo pra ano que vem pensarmos juntos. O que vc acha?

Ou podemos pensar algo assim de outro jeito. Sei lá. Poderíamos fazer um intercâmbio de experiências, encontros virtuais? Promover contatos. O que vc acha?

Bjs
Lu

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Meu diário de bordo... confissões e experiências

DIA 1 (outubro de 2008) - A Organização do grupo

Pensar em iniciar um novo grupo de professores bilíngües, é bem pesado no que tange a responsabilidade. Movimentar um grupo? Movimentar pessoas? Como é isso, o que me motiva?

Pensei seriamente em largar isso pra lá. Mas as pessoas me procuram, precisam estudar, precisam pesquisar, querem rever as coisas. E eu procuro as pessoas e vou dizendo, preciso também estudar, precisamos trocar, precisamos acrescentar uns aos outros.

Pensei num primeiro momento nas pessoas do grupo 1- elas colocaram suas questões, suas angústias, suas perspectivas, estudaram muito para o grupo.

Bom, resolvi iniciar este ano apesar do tempo curto. Mas iniciar para ver o interesse das pessoas, ver quem eu agruparia nesse momento.

Os primeiros a participarem e os primeiros que convidei, foram os que participaram do curso do ano passado. Mas outras pessoas esperavam participar tb nesse processo.

Então comecei a enviar e-mails e essas pessoas começaram a enviar e-mails para outras pessoas.

Inicialmente 25 vagas. Acabamos com 50 inscritos

A responsabilidade que nos cabe é muito grande. Ai... grande demais. Eu, sinceramente, não tenho a dimensão das coisas. Mas as pessoas que vêm, tem uma expectativa, uma esperança, uma vontade... querem algo novo, querem aprender coisas novas. Isso me provoca, isso me torna mais preocupada em produzir algo novo, que trará contribuição a essas professoras e professores.

Eles me dizem o quanto esperam, o quanto querem. Vem do interior mesmo em dia de chuva forte... eu fico mais provocada com isso.

Pensar em mapear as práticas bilíngües em nosso Estado, mostrar que há muita coisa boa sendo feita... isso me provoca. Me provoca porque quero ver as pessoas escrvendo, produzindo... meio que preciso disso também. E além disso, mostrar que as pessoas tem mais experiências pra contar do que pensam ter. Tem mais a escrever e inscrever em nós do que imaginam. E assim, como eu, mais a aprender com a experiência do outro do que possam crer.

E não posso deixar de dizer que trabalhar com alunos de graduação tb tem sido importante. Mas lamento demais não poder dar mais atenção pra isso. Muito chato mesmo ter que dar aulas em mil outros lugares para garantir meu ganha-pão. Gostaria de me dedicar a isso. E a eles.

domingo, 14 de dezembro de 2008

NOVIDADES!!!

Acabou de ser lançado o novo livro da coleção Estudos Surdos, o volume III. Entrem e se deliciem!!! Pode ser baixado na internet.

O link é: http://www.editora-arara-azul.com.br/estudos3.pdf

Boa Leitura!

Conversar com Professores

Segundo Larrosa, o sujeito da experiência é um sujeito exposto. "Do ponto de vista da experiência, o importante não é bem a posição (nossa maneira de pôr-nos), nem a oposiçãp (nossa maneira de opor-nos), nem a imposição (nossa maneira de impor-nos), nem a proposição (nossa maneira de propormos) mas a exposição, nossa maneira de ex-por-nos, com tudo o que isso tem de vulnerabilidade e risco" (Linguagem e Educação depois de Babel)