segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Carta a Lucyenne Matos

O que me motivou a fazer o curso de Libras, em primeiro lugar foi a minha curiosidade a respeito desta língua.
Tudo me era interessante, curioso, e me encantava a possibilidade de falar com as mãos. Não sabia sobre a existência deste curso, quando soube a respeito, prontamente me escrevi. Mas até então, passava pela minha cabeça que este curso se fundamentava somente no básico, veio ai então a minha surpresa, pois este era um curso modular, a partir daí o meu interesse aumentou, e assim me inscrevi para o intermediário e sucessivamente para o avançado.
Após concluir o curso, fiquei sabendo de vaga para intérprete em uma escola estadual. Visto que a lei 10.436, regulamenta a LIBRAS como língua oficial dos surdos e o decreto 5.626 veio fortalecer esta lei e em um de seus artigos explicita a necessidade do intérprete de língua de sinais em sala de aula, acreditei na possibilidade de me inserir neste mundo.
Para minha surpresa fui classificada, neste momento me foi apresentado o desafio, e sem a noção do peso da responsabilidade, aceitei ainda com receio esta vaga.
Pensei que assim como a língua é linda, a experiência também seria. Ledo engano.
Fui feliz e sorridente imaginando que tudo seria um mar de rosas.
Mas como nem tudo são flores, a realidade deve de ser enfrentada e de frente. Ao chegar à escola, percebi que muito havia a fazer; professores e corpo docentes despreparados eu também inexperiente, só fazia com que o serviço aumentasse.
A principio, os alunos foram bem resistentes, indisciplinados, desinteressados e sem motivação de reagir ao novo método que lhes era apresentado, pois para todos a inclusão era algo bem distante e novo.
Com eles pude aprender a ser mais paciente que o habitual, a ser inovadora e acima de tudo perseverante.
A inclusão ainda é uma espécie de utopia, e devido a isso todos os que estão no processo de “inclusão” sofrem, por exemplo, ouvi muitas criticas, insultos e até apanhei dos alunos, incidentes estes que me incitavam a desistir, mas também me levava a uma reflexão sobre a minha responsabilidade como educadora.
Pude compreender que, para eles também estava sendo difícil, pois tudo era novo e para eles, o fato de ter que se concentrarem em alguém era constrangedor, portanto fomos nos incorporando a um processo de aprendizado mutuo.
Com o tempo eles puderam aprender que a escola regular é diferente da Escola Especial onde na Escola Regular, possui regras, normas onde devem ser respeitadas e ter a consciência que ali eles devem respeitar seus colegas, seus professores, funcionários não que na Escola Especial não haja regras, normas que devem ser respeitadas, mas tem uma diferença de que eles vivem o seu mundo, sua vida, tem sua liberdade no ensino especial e no ensino regular, não é bem assim por isso estranho esse mundo novo, cheio de diferenças, aprendizagens.
Em relação às disciplinas, a sala de aula, foi um desafio imenso que torna gratificante quando vejo que todos estão ali se esforçando, aprendendo e que o trabalho da intérprete não está em vão. Trabalho difícil? Sim!!! Juntamente com a professora o meu trabalho não fica somente na interpretação, mas também ensino, e tenho que fazer isso de forma dinâmica, organizada, criativa, a fim de tornar o aprendizado prazeroso.
O trabalho da Intérprete do Ensino fundamental do (1º ano ao 5º ano) é completamente diferente da Intérprete do ensino médio de (1º ao 3º ano), pois “nossos alunos” chegam à escola como uma folha em branco e isso requer uma metodologia diferenciada por parte de todos o que lidam com essa nova modalidade de educação que é a inclusiva. Faz-se necessário algumas vezes a confecção de atividades, joguinhos, orientamos até mesmo os professores em relação ao aprendizado das crianças surdas, o que podemos facilitar para que ela desenvolva o seu aprendizado de maneira prazerosa,e assim possibilite uma aprendizagem mais tranqüila por parte dos alunos. Em uma escola onde todos reclamavam dos surdos, no seu 1º ano de Inclusão era angustiante ouvir que só os surdos batiam, brigavam, chamavam os pais para reuniões, eram reclamados e até mesmo suspensos! Era perceptível na expressão de cada um, sua tristeza, os olhinhos cheios de lágrimas dizendo por que isso? Não tivemos culpa sozinhos os ouvintes também estavam juntos. Mas pelo simples fato deles não ouvirem vinha sempre a discriminação...
Um ano se passou de luta, de muito trabalho, mas vencido o trabalho da professora juntamente com a da Intérprete, trabalho árduo, que dependia somente da gente para eles aprenderem com várias atividades de alfabetização, joguinhos, vocabulários e os surdos aceitando, uns aprendendo mais que os outros e até mesmo brigando, questionando que foi a culpa da intérprete por ele ter errado na prova, o seu não aceitar que fez sua tarefa errada e que teria que desmanchar e corrigir novamente, o saber fazer uma questão na prova e a atenção no coleguinha do lado que estava com dificuldade, e ele então ia à sua carteira de maneira sutil e dava a resposta porque não queria que ele errasse, a amizade era notória na turma. Ao longo de um ano eles aprenderam a ser críticos, autônomos, e capazes de conviver de forma harmônica.
Ao entrar no segundo ano da escola, onde nada era mais novo, tudo continuava da mesma forma, vimos os surdos chegando juntos e cada um dando o abraço, o sorriso nas Intérpretes, como foi lindo de ver isso!! E passando os dias, não ouvia mais que os surdos estavam brigando, pegando merenda de mais ninguém, para os funcionários que sempre reclamavam só víamos elogios, parabéns, abraçando cada um deles e até mesmo defendendo eles. Os surdos ajudando na escola, separando briga, correndo atrás da intérprete e falando que os meninos entraram na sala e estavam bagunçando.
Na sala de aula? O comportamento? É de admirar, de dar parabéns!!! Os que antes passeavam na sala, hoje eles ficam sentadinhos, conversando, contando o que aconteceu no fim de semana, no seu dia, mas tudo na harmonia... As atividades? Que gracinha de ver!!!! Fazem tudo, perguntam, e não importam se erram, sabem que se errarem vão fazer novamente e irão aprender, se o outro não sabe ou até mesmo está com dificuldade eles vão ensinar, mas não falam mais que o outro não sabe que é burro...
Para a escola, professores, intérpretes é gratificante ver essa nova cena, saber que o primeiro ano foi de luta constante, e hoje vemos que o trabalho que era de muito sacrifício, está tranqüilo. É preciso ter paciência, coragem, perseverança e acreditar que o que hoje é difícil, amanhã isso se tornará a coisa mais simples, como o vôo dos pássaros, um vôo demorado, mas com a certeza de que poderá atingir os mais altos céus.

Bjs.
Érika.













5 comentários:

  1. O que mais me chamou atenção na sua experiência de vida com surdos Érika, foi a sensiblidade que adquiriu depois de conhecê-los. O mundo tah precisando de pessoas assim, que segurem a bandeira das pessoas que, entre uma limitação ou outra, possuem potencilidades inimagináveis... P-A-R-A-B-É-N-S!!!!
    Cássia (Professora de sala inclusiva em Montes Claros/MG).

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  2. Obrigada pela carta minha querida! Realmente amei conhecer sua trajetória! Muito bela. Bjs

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  3. Tia Cássia, agradecer a você é pouco, tá? Professora assim como eu foi sensibilizada com a Educação de Surdos, foi buscar, aperfeiçoar, desenvolver e o melhor de tudo você os valoriza muito e isso é gostoso de ver!!!!
    Continue assim essa companheira de trabalho boa, solidária, gracinha de pessoa e que este ano juntas possamos desenvolver um trabalho bem legal!!!! Obrigada pelo comentário!!

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  4. Lú, minha linda!!!
    Depois de uma semana de curso nas férias, voltar ao blog e ler os comentários, as cartas é muito gostoso, uma semana de aprendizado, reflexão e aprendizado é muito bom!!!
    Muito obrigada, por me incentivar a ser uma pessoa com uma visão maior para o futuro, aprender com você sempre me faz ser uma pessoa que enxergar melhor as pessoas que estão em minha volta de uma forma diferente!!!!
    De sua sempre fã e admiradora.
    bjs

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  5. Lucyenne, obrigada pelo convite pois acredito que esse blog será uma fonte inesgotavel de experiencias a serem compartilhadas a partir de nossas vivências com os Surdos dentro e fora das escolas. Tenha certeza que isso muito me fortalecerá. Bjs

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