sábado, 7 de fevereiro de 2009

Carta a amiga Carmencita:

Bem, falar a respeito de nós mesmos nunca é tarefa fácil, mas falar de uma paixão, como tem sido minha incursão ao mundo surdo é para mim reviver momentos de extrema alegria e de profundas reflexões.
Minha trajetória tem início antes de 95, quando em decorrência de algumas viagens pessoais às Minas Gerais assistia em todas as palestras pessoas gesticulando ‘algo’ para uma platéia em especial, os surdos.
Como esses encontros tornaram mais freqüentes acabei por me encantar perdidamente por aquela ‘magia’ da comunicação, porém até então sem me envolver diretamente, nem mesmo me aventurei a aprender o alfabeto, pois achava algo impossível para mim, já portadora de L.E.R.-Lesão por Esforço Repetitivo. Mas, digamos que virei uma fã de carteirinha dos intérpretes.
Em 1996 em uma viagem a um país muçulmano fiquei extasiada ao ver que pessoas que nunca se cumprimentariam em via pública passando a conviver de forma harmoniosa dentro da residência de um casal de brasileiros cristãos, simplesmente porque a esposa brasileira sabia ‘sinais’. Mais uma vez fiquei em ‘estado de graça’.
Um mês depois retornava eu ao Brasil e enlouquecida para saber como aprender a Língua de Sinais.
Procurei em minha cidade na escola de surdos alguém que pudesse vir ao meu encontro, mas com a tradição oralista em nosso estado era forte, não havia professora alguma que soubesse a Língua de Sinais. Incrível não?!
Mas, não desisti da minha busca que durou algum tempo ainda...
Daí minha mãe sugeriu que procurasse uma amiga dela, hoje em dia uma grande amiga minha e também nossa colega aqui no curso, uma pessoa maravilhosa a Marinalda, ela então me levou ao primeiro contato com surdos usuários da LIBRAS, onde em uma família de surdos a filha ‘topou’ ensinar alguma coisa, mas sem nenhum material, nada, nada.
E eu, continuava a escrever (cartas, nada de internet, crinaças.. rsrs) para todas as igrejas que poderia ter Ministério com Surdos. Meu sonho era que os surdos pudessem entrar em nossa igreja, se sentar e ‘ouvir’ a mensagem tal como os ouvintes, e a partir desse momento tivessem a real oportunidade de escolha, se era ali ou não o seu ‘lugar’.
Bem, um dia em Vitória, fui a uma Conferência Missionária de minha denominação, a Batista, e na qual fazia parte do staff nacional, sendo assim fiquei hospedada na PIB-Vitória onde conheci uma pessoa maravilhosa, a Iléia, e ela me disse que lá poderiam fazer o meu sonho virar uma realidade. Apresentou-me a Cláudia e então marcamos que iriam nos visitar em Cachoeiro de Itapemirim, onde morava.
Nossa! Foi maravilhoso! Dois ônibus. Familiares, surdos, ouvintes... Uma loucura aquele povo todo movimentando a comunidade local... Foi emocionante os surdos da nossa cidade se encontrando com os de Vitória, podendo se expressar sem barreira lingüística... Livres!! Lindo!!! Edificante!!!
Bem amiga, daí começou efetivamente o meu contato mais íntimo com a LIBRAS.
Minha amiga surda Elisangela começou a nos apresentar aos surdos e passamos a nos reunir em minha casa todos os sábados. Uma loucura...
O mais interessante é que muitas adolescentes desse tempo hoje são profissionais da área da educação e uma delas fonoaudióloga, grande parte é intérprete, duas jovens surdas que não eram usuárias da LIBRAS estão hoje cursando Pedagogia e uma delas está no Letras-Libras conosco. É iso! Um dia ousei sonhar e juntos o tornamos real.
Resolvi postar uma foto desse tempo, já com o Ministériode Surdos na SIB funcionando a pleno vapor, em 2002, na Segunda Igreja Batista de Cachoeiro. Surdos e ouvintes na escadaria da igreja após uma aula da Escola Bíblica Dominical.
Hoje em dia moro em outra cidade, mas o sonho de liberdade continua vivo, pois vejo na utilização ampla, real e irrestrita da Língua de Sinais um grande passo para a libertação efetiva dos surdos. Pois os grilhões ainda estão aí, nas relações sociais, em nosso dia-a-dia mesmo que camuflados, ainda os ouço ao fundo, como âncora para os fracos que em discursos débeis procuram não naufragar diante da patente necessidade de adequação, na aceitação do outro, de suas especificidades.
Sim, ainda há em salas de aula o ranço oralista, com a não aplicação do Decreto nº 5.626/05 diante da passividade de muitos.
Mas, como diz uma tutora amada: “Vamos lá, pessoas!” e eu cá respondo: Só se for agora, Lu.
Um abração Carmencita, boa prova de FonFon e SignWriting amanhã.
Val Lopes

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