sábado, 2 de maio de 2009

Por que sou professora de surdos?

Caros colegas,

Registrar o que pensamos ou realizamos, é algo que para muitos não é coisa tão simples assim. É um exercício, um esforço. Talvez sacrifício ou um grande prazer, mas que dá preguiça dá. Por isso, é que demorei em escrever-lhes.

Bom, justificativas à parte, para aqueles que ainda não me conhece vou falar um pouco da minha experiência do por que sou professora bilíngüe. Aproximadamente 10 anos, tive um problema na laringe o qual me afastou da regência de classe por não poder fazer esforço vocal. Isso me levou a buscar estratégias de como continuar a fazer o que gosto e que me dá prazer na educação sem sair da sala de aula.

Foi num congresso de Missões em minha igreja (1998) que conheci o primeiro surdo, um Holandês, fiquei impressionada com a forma de comunicação e inicialmente fiz um curso básico de língua de sinais, e no decorrer dos anos tenho procurando me capacitar das mais variadas formas.

Como professora de escola pública municipal em Vila Velha, tive a chance de aplicar os conhecimentos em minha própria escola, para a qual havia sido transferida. Nessa escola, havia um aluno surdo muito indisciplinado, brigava nos recreios, em sala de aula, e os coordenadores não sabiam mais o que fazer com esse aluno, pois não sabiam se comunicar com ele. Constantemente a família ia à escola, mas também não resolvia.

Não fui a salvadora da pátria, mas com a minha presença na escola, possibilitou não só o diálogo entre o aluno e professores e coordenadores, mas também o trabalho pedagógico diferenciado oportunizando ao aluno surdo o acesso ao saber ensinado na escola.

O trabalho não foi fácil, pois entrar na intimidade da sala de aula de cada professor demandava jogo de cintura e muita negociação, isso demorou 3 anos, muitos não aceitavam, e outros clamavam para que eu ficasse direto em todos os momentos. Por fim, o aluno não era mais o mesmo, se tornou comprometido, disciplinado e desejoso pelo conhecimento.

Nesta nova fase, iniciei com ele um novo momento em sua vida. Ele já estava na 8ª série e era necessário se preparar para o processo seletivo do CEFETES. Foram muitos os esforços dele e meu, estudamos muito, ele interessado e eu mostrando para escola que o surdo não era deficiente, mas diferente na forma de comunicar e aprender.

Finalmente ele passou no processo seletivo para o curso Ensino Médio Integrado Técnico de Informática na modalidade EJA, mas depois de ter cursado 2 módulos ele evadiu, meses depois a vida lhe foi ceifada de modo bruto, surpreendente e inocente. Como intérprete nunca pensei que pudesse vir a interpretar em momento tão difícil (para mim) para aquele que um dia me possibilitou uma nova oportunidade de continuar exercendo minha profissão de outra forma.

Bom, esta é apenas uma das experiências que me passou e me tocou em minha trajetória como professora de surdos. Tenho várias outras para compartilhar, mas que no momento detenho em ficar por aqui.

Abc à todos

Cleunice Rodrigues Cardoso

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