sábado, 12 de dezembro de 2009

Não consigo mais ver uma pessoa surda como deficiente

Não consigo mais ver uma pessoa surda como deficiente. Quando criança, parava para pensar nas pessoas diferentes e como elas me causavam pena em algumas situações por não poderem fazer coisas que eu fazia. Olhava cadeirantes e ficava triste por não poderem andar, os cegos que dependiam daquela bengala, os mudos que não conseguiam se comunicar direito com pessoas que só sabiam falar. Muitas pessoas sempre têm essa reação quando vêem alguém que não tem as nossas equivalências físicas. Mas um episódio, que não é diretamente ligado ao mundo das LIBRAS, me fez pensar que eu pensava errado.
Um dia estava andando na Rua Graciano Neves, no Centro da Vitória, quando vi um moço jovem cego tentando chamar alguém para ajudá-lo. Eu, como de costume, parei e perguntei se precisava de alguma coisa. Perguntou-me sobre um endereço que não sabia informá-lo, e naquela hora me senti tão perdida quanto ele. Depois desse momento, muitos apenas responderiam que não sabiam e iriam embora, e o moço ficaria lá esperando a informação cair do céu. Mas ele me pediu para que eu o guiasse até o ponto mais próximo da Praça Costa Pereira que lá ele pediria a informação para alguém, e eu disse que tudo bem. Eu fiquei pensando: “Mas será que ele vai conseguir chegar ao lugar onde quer?!”. E ele me pediu para segurar no meu braço (e a partir desse dia aprendi, e passo a todas as pessoas que eu puder, que as pessoas com diferença visual preferem segurar no braço dos guias, e não o contrário). Quando comecei a andar, tomei todo cuidado para ele não tropeçar e nem esbarrar em nada, mas ele me disse que eu podia andar mais depressa. E eu andei mais depressa, e ele me acompanhou tranquilamente, chegando até a andar mais rápido do que eu. E quando eu me dei conta, estávamos nos desviando das pessoas, na maior tranqüilidade, na Avenida Jerônimo Monteiro, uma das ruas mais movimentadas de Vitória. Quando chegamos ao ponto de ônibus, disse a ele: “Chegamos ao ponto de ônibus”. Ele me disse: “Pode deixar que agora aqui eu me viro”. E ele ficou lá, esperando mais alguém com boa vontade para ajudá-lo.
No contexto em que escrevo esse texto, tento apenas relatar uma experiência que tive em que concluí que não podemos menosprezar a diferença como dificuldade. Ao andar com o jovem que não enxergava, me senti tola ao pensar que ele não conseguiria me acompanhar porque não tinha a habilidade de ver que eu tenho. E eu concluí com isso que não há deficiência, mas diferença. A pessoa com diferença auditiva também não gosta de ser vista como deficiente, e eu também não acho que ela seja deficiente. O que temos que pensar é que cada de um de nós é diferente, e devemos nos inserir também na diferença do outro. Mas no mundo de hoje, estamos cada vez mais fechados em nossa individualidade, e o outro só importa se me beneficiar diretamente.
Para concluir o texto, que fala mais sobre a diferença no geral, e que também envolve as pessoas com diferença auditiva, queria muito poder me dedicar mais ao estudo de LIBRAS, pois acho muito importante para o nosso convívio em uma sociedade mais unida – sim, sou muito utópica, e não abro de mão de pensar nas minhas utopias sociais – e também porque, acima de tudo o que foi apresentado por mim nesse texto, devemos tratar com respeito e igualdade todas as pessoas, independente de suas diferenças. Essa pode parecer uma frasezinha clichê, mas se nos colocarmos diante de um mundo onde a igualdade fosse muda e a diferença falasse, talvez nós seríamos mais compreensivos com a realidade e nos importaríamos e cobraríamos uma mobilização política a favor da diferença.

RACHEL MARVILLA
LETRAS PORTUGUÊS- UFES

Um comentário:

  1. PASSANDO PARA DIZER UM OI...
    E TE CONVIDAR PARA CONHECER MEU NOVO CANTINHO! MINHA OUTRA PAIXÃO QUE É OS LIVROS!
    http://pollymomentos.blogspot.com/
    FICAREI FELIZ COM SUA VISITA.

    ResponderExcluir